DUAS CASAS NO ALENTEJO

Os projectos para duas casas no Alentejo envolvem a reabilitação de dois montes Alentejanos na zona de Casa Branca, no concelho de Sousel e foram realizados em dois períodos distintos.

Monte Novo AntesEm 2005 a Maria João Lima e o Afonso Cruz decidiram adquirir uma velha casa e mudar-se da capital para esta zona interior do país e aí fazerem sua morada. Quando a encontraram, os seus últimos habitantes haviam deixado o local há algum tempo e a casa tinha atingido um elevado estado de degradação. Uma inscrição existente na sua grande chaminé datava a sua construção em 1893.

A casa surgia sozinha numa grande e árida planície, porque o terreno havia sido totalmente desarborizado pelo proprietário anterior. Apesar do mau estado em que se encontrava, pretendia-se preservar a sua identidade original, particular no contexto da arquitectura popular do Alentejo. Apresentava um corpo único, linear, com uma cobertura simples de duas águas, mas era interessante notar ausência de beirados e a presença de alguns motivos decorativos nas fachadas.

Exposição SolarComo se revela prática mais ou menos normal nesta zona do país, a casa implantava-se a meio declive, orientada ao longo do eixo Norte-Sul, sendo que as relações entre o interior e exterior eram estabelecidas através da fachada nascente. Esta implantação e organização espacial interior das casas, possibilita a existência de uma zona exterior protegida do sol nas tardes quentes e o posicionamento das zonas de convívio nesta parte da construção, com aberturas para o exterior através de vãos de sacada. A fachada poente é torna-se mais fechada, com vãos de peitoril.

monte-novo-02A verba disponível para a realização da obra revelava-se reduzida, o que determinou a utilização de materiais e técnicas construtivas económicas. A casa não iria ser valorizada pelo detalhe ou pela utilização de materiais ostensivos. Pelo contrário, o projecto ambicionava valorizar a casa através de relações espaciais interessantes e dimensionamento de espaços generosos, sem recorrer a linguagem estridente. Alinhava-se assim a ideia dos proprietários, com a intervenção que viria a ser proposta através do projecto.

monte-novo-01A intervenção estruturou-se em torno da principal referência existente, o eixo longitudinal da casa. Nesse eixo determinou-se a localização do portão exterior do terreno e foi desenhado um terreiro de chegada, delimitado por muros em todo o seu perímetro. Este terreiro articulava a casa pré-existente e um novo corpo construído, destinado para garagem e actividades de lazer mais relacionadas com o terreno. A casa e esta nova construção desenhavam um segundo espaço exterior de dimensões generosas que se implantou na zona nascente, para tirar proveito da sombra projectada pela fachada da casa e do novo volume, nas horas de maior calor. Será importante assinalar ainda, a inclusão de dois planos horizontais de ensombramento nesta zona, para a existência de zonas mais protegidas junto aos espaços interiores.monte-novo-03A casa foi alvo de algumas alterações no seu interior, já que era constituída por muitas pequenas divisões, na parte habitável a sul e, na parte norte, era ocupada por um grande curral. A compartimentação proposta teve o objectivo de optimizar a área construída, respeitando a área de construção máxima permitida pelo Plano Director Municipal em vigor (200m2). Para proporcionar maiores áreas utilizáveis, os espaços de circulação foram praticamente eliminados, sendo que foi criado um espaço que se torna estrutural na organização interior: Uma grande cozinha para onde se abrem todos os espaços, aqui despojada de mobiliário e revestimentos eminentemente utilitários ou “antisépticos”, para pudesse ser também entendida e utilizada como o principal local de convívio informal e familiar.As minha memórias levavam-me à pequena casa alentejana dos meus avós, ainda criança, recordando-me dos serões passados em convívio na cozinha e do agradável perfume do pão torrado na lareira acesa que sentia de manhã, ao abrir a porta do quarto onde ficava a dormir.

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Em 2010 o Miguel Lima e a Sandra Pimenta adquirem uma casa antiga próxima do local. Esta segunda casa, de construção mais recente, encontrava-se em melhor estado de conservação e o programa de intervenção definiu a reabilitação da casa e a manutenção das suas características originais.

 

A casa apresentava a forma vulgar de corpo único com telhado simples de duas águas e implantava-se num terreno amplo, numa zona de construções dispersas. O terreno era arborizado por muitas oliveiras e algumas árvores de fruto, principalmente plantadas na zona nascente, para onde se abria a casa. Duas grandes figueiras, colocadas paralelamente a esta fachada, ajudavam a construir um espaço exterior mais protegido, muito utilizado pelos antigos proprietários.

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Apesar de ser uma construção relativamente modesta, eminentemente utilitária, a compartimentação interior era muito interessante, com muitas divisões, relacionadas directamente entre si. Esta organização linear possibilitava que as divisões fossem aglutinadas, conseguindo-se espaços mais amplos, simplesmente aumentando a largura dos vãos já existentes. Por outro lado, as divisões podiam ser isoladas, limitando as passagens através do fechamento de vãos. Desta forma, conseguiu-se criar divisões mais espaçosas, através de uma intervenção discreta e económica, que garantiu a preservação das características originais do edifício, sendo importante sublinhar que as paredes mantiveram o papel estrutural que desempenhavam originalmente.

O estado de conservação da casa era aceitável, mas eram visíveis fissuras graves em algumas paredes, e o vigamento da cobertura apresentava sinais evidentes de ruptura em alguns elementos. Procedeu-se à consolidação das paredes fragilizadas através de um sistema de “agrafos” e realizou-se substituição integral do vigamento referido. Determinou-se que as fachadas permaneceriam totalmente intocáveis. A cobertura iria recuperar as telhas existentes e apenas as janelas seriam substituídas. Para melhorar as características energéticas da casa e garantir um isolamento eficaz do telhado, foi projectada uma pele interior com isolamento térmico e camada impermeabilizante no telhado. Isto significava que exteriormente a intervenção iria ser praticamente invisível, estando previsto apenas a sua caiação pelos proprietários após ao final da empreitada de construção, como se procede tradicionalmente na manutenção destas casas caiadas.

Os espaços interiores receberam materiais simples, essencialmente argamassas hidráulicas e madeiras em pinho. As paredes foram caiadas, aproveitando o seu carácter naturalmente irregular, e todos os pavimentos foram revestidos a argamassa de cimento e areia “queimado à colher”. Nas zonas húmidas, criaram-se lambris no mesmo material para garantir uma limpeza mais fácil e resistência nas paredes. A obra termina com as obras de melhoria das janelas e portas interiores. Pontualmente realizou-se a abertura de novos vãos ou o aumento de vãos existentes para melhoria da luz interior e das vistas, e as novas portas criadas seguiram o desenho das existentes, que foram recuperadas.
Esta sobriedade de materiais e cuidado no controlo da luz e vistas, criaram espaços interiores com expressão clara, facilmente apropriáveis pelos habitantes, sendo conseguida uma qualidade plástica com recurso a materiais mais tradicionais e económicos.

 

(Brevemente “Um dia com os proprietários”)