QUALIFICAÇÃO DO ESPAÇO RURAL. PROPOSTA PARA O ALQUEVA

A construção da barragem do Alqueva na bacia do rio Guadiana e o enchimento da sua albufeira, vieram causar profundas alterações numa vasta área do território português. Uma grande extensão do bacia do rio encontra-se agora alagada pela albufeira, numa extensão superior a 100km e com uma superfície de água na ordem dos 25’000ha, alterando drasticamente relações milenares que foram criadas ao longo da história da ocupação destas terras pelo homem.

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Imagem de estrada interrompida pelo enchimento da albufeira do Alqueva

Numa região com condições climáticas muito adversas, conhecida pelos seus períodos cíclicos de seca severa e grandes variações de temperatura (entre os 0° no Inverno e os 45º no Verão), as questões relacionadas com a terra são fundamentais para o entendimento da estrutura social no Alentejo.

Na fase final da monarquia, quando se dá a transição do regime antigo para o novo sistema liberal, as terras anteriormente divididas entre a Coroa, a Nobreza, as Ordens Religiosas e a comunidade (através das terras comunais doadas pela Coroa) passam a pertencer maioritariamente aos novos ricos que surgem nessa altura, que as juntam em grandes propriedades, marcando assim o surgimento dos grandes latifundios típicos desta região. A nível social, o fenómeno da usurpação das ditas terras comunais abre caminho para a perca de condições de subsistência da generalidade da população, contribuindo fortemente para as desigualdades sociais que se verificam até ao 25 de Abril.

Evolução demográfica na primeira metade do Século XX

Por outro lado, as obras públicas ficam sujeitas à sazonabilidade típica da ocupação dos trabalhadores rurais, já que estas tém de ser programadas em função dos períodos anuais de desemprego destes, para ser conseguida a mão de obra necessária aos trabalhos. O fenómeno origina certa concorrência entre a actividade produtiva e a realização de obras públicas, sendo que as últimas são remetidas para os períodos “vazios”, constantemente interrompidas e recomeçadas.

Evolução demográfica na segunda metade do Século XX

Num cenário de generalizado atraso tecnologico e desigualdades socias, é fácil de entender a perca de população que ocorre na segunda metade do Século XX, despoletado pelo procura de mão de obra na cintura industrial de Lisboa e nos países desenvolvidos da Europa Central. Muitos deixam a região procurando alternativa às duras condições de trabalho e a perspectiva de uma vida melhor.

 

A Barragem do Alqueva

O Alentejo surge assim na segunda metade do século XX desorganizado, dividido socialmente e empobrecido de recursos. Após os conturbados anos do pós 25 de Abril, quando o país finalmente se constitui como uma democracia consolidada, na sua aspiração ao estatuto de país desenvolvido, grandes obras públicas são realizadas, apadrinhadas por fundos comunitários.

Sistema de albufeiras da barragem do Alqueva (cor preto) e respectivas áreas de rega (a cinzento)

Neste clima progressionista surgem a vontade e a capacidade que permitem a construção da barragem do Alqueva. Idealizada ainda em pleno período de Estado Novo, após muitos avanços e recuos a construção avançou finalmente já no século XXI, e em Fevereiro de 2002 fecham-se as comportas da barragem e dá-se início á subida do nível das águas. Lentamente vão se construindo os extensa rede de canais que serpenteando pela paisagem cortam o território numa nova malha que transporta água com capacidade para irrigar 110’000ha de terrenos em cultura de regadio.

 

Apesar deste esforço e investimento em infraestruturas locais, o abandono do interior mantém-se. Entre a décade de 70 e início do Século XXI, o Alentejo perde 25% da sua população. Os investimentos são realizados em vias rápidas e auto estradas, que favorecem essencialmente as ligações entre as grandes cidades. Para facilitar  a fluidez deste tráfego à macro escala, os traçados orginais dos percursos são desviados dos pequenos aglomerados, afastando as camadas mais desfavorecidas da relação que poderiam ter com esse progresso. O interior, vê-o passar distante, um automóvel que passa veloz em direcção à próxima cidade, na maior parte dos casos Lisboa.

 

Os Corredores Verdes como instrumento para o desenvolvimento rural

Importa-nos identificar as outras vias de comunicação que funcionam à escala local. Repetidamente esquecidas no meio do esforço desmedido da construção à macro-escala, permanecem como indispensáveis no relacionamento entre as populações locais.

Em Setembro de 2000, é assinada em Lille uma declaração por representantes de vários países do mundo com o compromisso para o desenvolvimento de uma rede viária verde europeia. Trata-se da criação de vias de comunicação reservadas para deslocações não motorizadas, que valorizem o meio ambiente e a qualidade de vida das áreas envolventes. Devem permitir acessibilidade facilitada a todos os utilizadores independentemente da condição física, segurança contra acidentes, comodidade na utilização através de declives e curvas suaves, facilidade de uso através de informação e sinalização.

 

Canais de distribuição de água do Alqueva | Vista aérea

A propostaTira partido da rede de canais a céu aberto transformado-os em vias de comunicação ecológicas, já que estes percorrem um extensão que ascende aos 500km e ligam de forma privilegiada localidades.e enquadra-se no movimento existente de criação de corredores verdes. Pretende constituir um instrumento de combate face ao desinvestimento no interior, potenciando a qualidade de vida e o desenvolvimento sustentado.

Canais de distribuição de água do Alqueva | Perfil tipo

 

 

 

Embora a proposta não pormenorize a qualificação dos caminhos rurais, o projecto de criação dos corredores verdes deverá ser visto na perspectiva geral de qualificação do espaço público rural, onde os dois fazem parte integrante. São por isso identificados este percursos que seriam objecto de qualificação. Identifica-se ainda o património construído pelo homem, que se pretende envolver na proposta. Referimo-nos a ruínas ou outras construções antigas, que podem servir como pontos de atracção e também as casas e outros edifícios que constituem locais de vivência privilegiada com o território e que se pretende explorar.